quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ReFiSeFuQui

Risível ver alguns bradando por "distribuições Linux nacionais", "soberania" e verborréia assemelhada. Falta avisar para essa gente que o ecosistema Linux é majoritariamente desenvolvido por corporações estrangeiras e que, se o trabalho delas fosse suprimido da noite para o dia, tudo implodiria.

É um erro chamar as ReFiSeFuQui de distribuições Linux. São projetos que apenas sugam suas distribuições mãe e quase sempre (sempre?) não agregam absolutamente nada aos códigos upstream -- o que importa de fato. Trocar um tema, papel de parede, customizar uma seleção de pacotes, colocar alguns ícones em lugar diferente e chafurdar em shell scripts de qualidade duvidosa nada importa para o ecosistema Linux. O ecosistema precisa de programadores, designers, tradutores, testadores. Faça uma pesquisa para ver como existem vários projetos open source em estado de morte latente por falta de gente. Ah, e nem venha com a estupidez da "seleção natural", que nem merece resposta.

Sou um usuário Linux, mas não sou deslumbrado nem fanático. Tenho noção que o Linux, no formato distribuição, falhou no desktop. Por outro lado, prospera no servidor, em estações de nicho e dispositivos embarcados.

Nos mostrou como desenvolver um sistema operacional e entrar na briga com grandes do software proprietário o Google com o seu Android. Os deslumbrados dirão: é Linux! Tecnicamente não está incorreto, pois roda o kernel Linux. Sim. Mas você sabe que um kernel sozinho não serve para nada, certo? Um kernel lhe fornece os primitivos básicos e abstração de hardware; o mínimo de um sistema operacional. Não é possível fazer um aplicativo só com isso. Você precisa de um espaço de usuário. E você acha que o Android tem alguma coisa do espaço de usuário de um Linux tradicional? Muito pouco. O espaço de usuário do Android é completamente diferente. Entre as diferenças, uma delas é maior padronização; mesmo com a fragmentação de versões e configurações de hardware, é muito superior a qualquer distribuição Linux. Isso dá a programadores estímulo para criar aplicativos para a plataforma, com objetivos comerciais (o que é fundamental) ou não.

O Android é finalmente o Linux para as massas. Controlado por uma grande empresa. Não é aquela mão de ferro da Apple, mas também não é a anarquia que conhecemos das distribuições.

Voltando à "soberania nacional", não existe distribuição Linux brasileira desde que a Conectiva foi absorvida pela francesa Mandrake, formando a Mandriva. Que, aliás, está (na corda bamba) nas mãos de capital russo faz algum tempo.

Para os defensores do "software livre nacional", sugiro que leiam sobre a recente obsolescência do module-init-tools, o código usado para lidar com os módulos do kernel:

http://www.politreco.com/2011/12/announce-kmod-1/
http://git.profusion.mobi/cgit.cgi/kmod.git/

Seu sucessor, kmod, foi criado por programadores da ProFUSION, uma empresa brasileira focada em software embarcado, que, além do kmod, teve presença forte no planejamento e desenvolvimento do systemd.

kmod é software que em pouco tempo será usado por todas as grandes distribuições. Um fulano que instalar qualquer Linux lá na Islândia estará rodando o kmod. Idolatrar desenvolvedores por nacionalidade me parece um ufanismo bem idiota, mas infelizmente nós desenvolvemos o cacoete do "viva! é brasileiro" a ponto de batizar um projeto de "BrazilFW"... De qualquer forma, caso você realmente queira puxar um pouco de saco, puxe de programadores, não de desocupados que enchem nossa paciência com as ReFiSeFuQui.

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